domingo, 3 de maio de 2015

Gaio Doria: Futebol e Socialismo na China


Reza a lenda que, quando as reformas econômicas foram colocadas em prática, a China tinha apenas uma estrada pavimentada. Estabelecida como uma das metas principais, o setor de transporte desenvolveu-se assustadoramente rápido. Hoje qualquer um que visite o país asiático se deparará com pungentes rodovias e trens-bala conectando todo o território. A China não brinca em serviço. Missão dada é missão cumprida.

Por Gaio Doria*, especial para o Portal Vermelho


Torcedores da seleção da China
Torcedores da seleção da China

E o Brasil que se cuide, pois um nova meta foi estabelecida pelo governo chinês: a revitalização do futebol. E se a banda tocar no mesmo ritmo que foi a construção dos transportes, vem muita concorrência por aí.

Pode parecer piada mas, no dia 16 de março de 2015, o Conselho de Estado da China emitiu um plano de reforma extremamente audacioso para transformar o país em uma potência futebolística com aspirações a títulos mundiais. A maior meta é ganhar e sediar pelo menos uma Copa do Mundo.

O plano intitulado “ Plano Geral para Reforma e Desenvolvimento do Futebol Chinês” tem 50 pontos e basicamente envolve todos os aspectos do esporte, incluindo desde seu gerenciamento, clubes, ligas e times nacionais até a construção de estádios. Este estabelece uma estratégia de “Três etapas” que nada mais é do que objetivos fixados no curto, médio e longo prazo.

Os chineses acreditam que o esporte mais popular do mundo pode gerar crescimento econômico e encorajar uma maior participação social na China, além de projetar a imagem do país dentro dos eventos esportivos mais assistidos do mundo.

Mas nem tudo são glórias no futebol chinês. Assim como no Brasil, muitos destacam como obstáculo principal ao progresso da pelota o atual sistema gerido pela Administração Geral de Esportes da China – órgão regulador de toda atividade esportiva no país - na forma da Associação de Futebol Chinesa, a versão asiática da CBF. 

Pelo visto, cartolagem, falta de profissionalismo e a incapacidade de gerar novos talentos nacionais não são problemas exclusivos do Brasil.

De acordo com o ranking estabelecido pela FIFA, a China ocupa 82º lugar no masculino, enquanto no ranking feminino ocupa o 16º lugar. 

A seleção masculina foi um fiasco na Copa de 2002, quando foi rapidamente eliminada sem marcar um gol. A seleção feminina também anda mal das pernas, pois apesar de um longo histórico de vitórias em campeonatos asiáticos, experimenta um período de declínio.

Mesmo com todos os problemas, o país ainda tem, guardadas as devidas proporções, grande número de torcedores. E é justamente através da popularização maciça do esporte que o governo pretende começar sua reforma. 

Segundo as metas estabelecidas pelo plano geral, o número total de escolas de ensino primário e fundamental promovendo o futebol deve ser maior que 20.000 até o ano de 2020. O objetivo é ter 50.000 escolas em 2025. E o futebol feminino também foi contemplado por essa parte do plano. A ideia não é formar apenas jogadores, mas técnicos e professores. Cursos de capacitação também serão oferecidos pela Associação de Futebol da China.

Os governos de todos os níveis são encorajados a investir no esporte. Também foi criada a “Fundação para o Desenvolvimento do Futebol na China”, uma organização sem fins lucrativos cujo objetivo é angariar fundos através de doações. Interessante é que os doadores podem ganhar um desconto no imposto de renda. Aliás, a loteria esportiva também servirá para apoiar os esforços de desenvolvimento de futebol.

Todas as organizações - de escolas a corporações - são encorajadas a montar seus próprios times. O plano incentiva inclusive os sindicatos, a Liga da Juventude Comunista, a Federação das Mulheres e outras organizações de massa para assumirem um papel de destaque na promoção do desenvolvimento social do futebol na China.

Mas para quem pensa que política e futebol não se misturam, não se engane. O plano estabelece claramente que a ideologia orientadora é o Socialismo com características chinesas e que a liderança do Partido Comunista deve ser reforçada. As decisões tomadas para a reforma do futebol são frutos dos debates ocorridos nas plenárias do 18º Congresso do Partido.

Criar um bom ambiente de opinião pública através da orientação das massas para uma compreensão objetiva das regras do futebol e construir visões racionais de vitória e derrota são algumas das metas sociais estabelecidas pelo governo. 

Tudo se resume a uma conclusão. Depois da fragorosa derrota do Brasil para a Alemanha, ou o Brasil se coça para reformar seu futebol ou em breve a China poderá ser a próxima pentacampeã do mundo.

*Historiador pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Economia Chinesa pela Universidade do Povo da China (Renmin University of China) e doutorando no Departamento de Marxismo na mesma universidade. 

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